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30/12/2009 Saúde

PROFESSOR: A anatomia de um trabalho penoso

A Conferência Especial sobre a situação do pessoal docente, convocada pela UNESCO em colaboração com a OIT em Paris, 1966, recomenda entre outros pontos o cuidado com as condições de trabalho e com as doenças oriundas do trabalho.

No Canadá estudos recentes mostram que 64% dos docentes adoecem no trabalho de estresse. A esse fator adicionam-se as demasiadas horas de trabalho e a ausência de perspectiva na carreira por falta de capacitação.

Preocupados com as enfermidades em 25 países, a Internacional da Educação e UNICEF, reuniu 39 sindicatos internacionais para lançarem programas que abordassem cuidados com o VIH/SIDA, como prevenção a novas infecções nos docentes e alunos. Estes programas têm por objetivo provocar os governos a incorporem nos seus países políticas de saúde em favor da saúde universal do Trabalhador em Educação.

A Internacional da Educação observando os diagnósticos das causas das doenças destacou que a jornada de trabalho dos educadores de 40h/aula semanais e ofensivas a sua saúde. Observou ainda que são raros os casos de doenças em países que parte desse tempo é dedicada ao trabalho extra classe.

A UNESCO destaca também como carga horária de trabalho as horas extraordinárias que não são pagas e têm efeitos particularmente nocivos sobre as condições de trabalho e de SAÚDE DOS EDUCADORES. Segundo a UNESCO torna-se mais acentuada as possibilidades de estresse do trabalho realizado pelos professores em “condições ditas normais”, pelos gestores.

Relata ainda a Internacional da educação, que os péssimos salários levam os educadores a dedicarem, em média, 14h/semanais com atividades não remuneradas, além das 40h voltadas para as atividades educacionais. Neste regime se enquadram 49% dos Trabalhadores em Educação.

Soma-se a essa carga de trabalho, cerca de 8h/semanais gastas com trabalho da escola feito em casa, totalizando uma jornada semanal média de 62 horas, segundo a UNESCO e a Internacional da Educação.

Essa jornada excessiva tem contribuído para o aparecimento mais cedo de doenças do trabalho, tais como:
 Problemas de coluna – causados pelo grande número de horas em posições incômodas e uso de equipamentos não ergonômicos;
 Problemas cardíacos - provocado pelo stress;
 Calo nas cordas vocais – oriundos das excessivas horas de fala em voz alta;
 Doenças psíquicas e neurológicas – provocadas muitas vezes pelo trabalho que exige a atenção ao público, conflito nas relações, excesso de responsabilidade e das exigências burocráticas;
 Varizes – provocadas por problemas circulatórios diversos e hospedeiros pelo tempo longo que o profissional passa em pé.
 Irritação e alergia – provocados pelo pó de giz e ambiente insalubre nos prédios das escolas.

A UNESCO chama a atenção para a jornada média internacional que está calculada entre 30 a 35 horas semanais nas escolas. Destas, 18 a 24 horas, são de atenção direta aos alunos. Apesar dessa diferença, considera que essa jornada não é ainda suficiente para atender às tarefas extraclasses, de autopreparação, preparação e correção de provas e de exercícios, preenchimentos dos diários de classe, elaboração das médias, etc.. .

O quadro de doenças atinge 2,5 milhões de Trabalhadores em Educação em atividade profissional, exigindo empenho dos governos com a saúde dos profissionais.

Muito do desconhecido paira no trabalho educacional e escolar. Os tensionamentos permanentes desafiam a mística do educador, seus segredos e paixões, seu afeto e razão, seus sonhos perdidos e o esmero da profissão. Encontramos sempre os educadores buscando re-construir sua identidade e resgatar sua auto-estima.

A confluência desses dados mostra a complexidade da profissão, sua evolução por falta de política que devolva sua autonomia, autoridade.
Denunciando o descaso do poder público, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE realizou em parceria com o Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília, uma pesquisa sobre as condições de trabalho e saúde mental dos Trabalhadores em Educação.

Cerca de 1.800 (um milhão e oitocentos mil) educadores, num período de dois anos e meio, foram investigados por uma equipe interdisciplinar de 15 (quinze) pesquisadores em 1.440 (mil quatrocentos e quarenta) escolas com a aplicação de um protocolo composto de 15 (quinze) escalas de investigação sobre trabalho e relações sociais, 7 (sete) escalas clínicas, 1 (uma) de burnout, 1 (uma) de alcoolismo, além de dados sobre a vida e trabalho.

Essa pesquisa revela que 48% dos educadores no Brasil sofrem de exaustão emocional. Contraditoriamente 90% estão satisfeitos, pois a grande maioria é comprometida com seu trabalho. Ressalta a pesquisa, como entender um trabalho assim, um trabalho em que coabitam, siameses, o prazer e o sofrimento, a realização e a perda de si mesmo, o inferno e o paraíso.

Essa anatomia determina que coexistem um trabalho penoso e um profissional teimoso.
 

Autor(a): Fátima Cardoso, Coordenadora Geral do SINTE/RN

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