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24/03/2010 Saiu na imprensa

Fim da greve não garante aulas

Estudantes fardados ocupando calçadas, em vez de sala de aulas. Pais retornando com os filhos antes do horário. Escolas vazias. O cenário que remete ao período de greve, continua a ser encontrado nas escolas da rede estadual apesar do fim da paralisação. Seja por falta de professores, carteiras e até merenda escolar, o fato é que para algumas escolas o ano letivo, que deveria ser iniciado no dia 1º e foi adiado devido à greve para o dia 15, ainda não tem previsão para começar.

Sem ter a quem recorrer, a dona de casa Terezinha de Jesus do Nascimento, 75, bisavó de Sabrina, 7, estudante do 1º ano da Escola Estadual Monsenhor Alfredo Pegado, em Mãe Luíza, conta que todos os dias a bisneta, acorda cedo para ir à escola e volta para casa meia hora depois com a promessa de que “só na próxima segunda-feira”. “O problema é que tem segunda-feira toda semana e eu não sei mais o que fazer”, disse a senhora que cuida de outros dois netos, que passam o dia na rua com a falta de aulas. “Pior que a gente sabe o que espera por eles fora da escola”, acrescenta. Sabrina é apenas uma das cerca de 400 estudantes de um total de 560 matriculados, que estão sem professores. Cinco turmas iniciaram as aulas.

Devido o atraso, Maria José da Silva, mãe de uma estudante do Ensino de Jovens e Adultos, optou por transferir a filha para a E. E. Selma Lopes, na Guanabara. “Não dá mais para esperar, mesmo sendo a noite e longe de casa é melhor do que ficar sem estudar”, disse.

O déficit de professores na E. E. Mons. Alfredo Pegado chega a 11 profissionais, apenas cinco são do quadro. Segundo a professora Silvamara Araújo Barros Laurentino, ao contrário do esperado, a Secretaria Estadual de Educação está com inscrições abertas para selecionar estagiários para preencher as vagas. “É uma situação complicada, porque não aderimos à greve e as aulas estão prejudicadas. Sem falar que, devido ao estigma de violência, muitos selecionados desistem quando sabem que é para trabalhar em Mãe Luísa”, observa a pedagoga.

Ainda em Mãe Luíza, a Escola Estadual Severino Bezerra de Melo também está devolvendo os alunos. Além do quadro de professores incompleto, a escola padece da falta de carteiras para acomodar os estudantes. Mãe de dois alunos, Lúcia Cristina da Silva conta que está prejudicando o trabalho porque não tem com quem deixar os filhos. Um deles, Carlos Daniel, 10, frequenta no contraturno aulas de reforço. “Está aqui o que ele aprendeu esse ano. Uma vergonha”, mostra o caderno em branco do filho.

Na escola, a direção não foi encontrada e não autorizou funcionários a receber a equipe de reportagem. A falta de merenda e insuficiência de carteiras reduziu o tempo de aulas em uma hora na Escola Estadual Lauro Castro, em Cidade da Esperança. Para não prejudicar ainda mais os estudantes, o aprendizado é feito em tempo corrido, das 7h às 10h. A situação força os alunos a dividirem carteiras ou mesmo remanejarem de sala em sala, as desocupadas e em bom estado. “É um troca-troca de carteira, um senta, depois levanta para dar lugar ao outro. Arrasta de uma sala para outra e assim vai”, disse uma educadora. A dispensa vazia, segundo professores que preferiram não se identificar, se deve à mudança na gestão, o que demanda trâmites burocráticos para renovação da assinatura e compra dos alimentos.

Subcoordenadora garante que repasse de saldo foi efetuado

De acordo com a subcoordenadora de assistência ao educando da SEEC Socorro Duarte, os repasses de saldo reprogramado (sobra do ano anterior) foram repassados às escolas uma semana antes do início das aulas. O depósito do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) deverá ser feito até o dia 29 deste mês. “Se falta o que eles comerem é por má administração, porque os recursos estão lá”, disse.

A reportagem tentou contato com os coordenadores do setor de recursos, Pedro Guedes, e do departamento de manutenção de patrimônio Paulo Pires, mas não obteve sucesso. A assessoria de imprensa da SEEC também não deu retorno sobre medidas adotadas.

A falta de professores na Escola Estadual Hegésipo Reis, em Nova Descoberta, tem causado transtornos para além-muros da pequena instituição. De acordo com a mãe de aluno Maria da Conceição Braga do Nascimento, o atraso nas aulas tem aumentado o índice de violência e situações de riscos a que os estudantes estão expostos. “Cresceu a criminalidade. Se não tem aula, eles ficam aí nas ruas. O meu não quer aguardar em casa, mas o que a gente vê é criança envolvida com drogas. Se as aulas já tivessem começado eles estariam com esporte e educação garantidos”, disse Conceição.

Segundo a assistente social, o prejuízo recai em outro âmbito. Boa parte dos alunos sequer tem o que comer em casa e se vale do lanche servido na escola como primeira refeição do dia. “Às vezes é a única que alguns deles tem”, afirma.

Reconhecida por abrigar projetos pedagógicos de sucesso, a E. E. Hegésippo Reis possui 120 alunos, do 1º ao 5º matriculados, aguardando a seleção de estagiários para começar o ano letivo. A escola funciona à base de contratos anuais, uma vez que o Estado não contrata mais professores para educação infantil e ensino fundamental. Os pais protocolaram um documento de indignação na última segunda-feira, na SEEC.

“O que percebemos é que o tempo da Secretaria de Educação é diferente do tempo da necessidade destas famílias. Porque ficou o processo de contratação para a última hora. Quando sabem que nossa necessidade é de concurso público e não envio de professores temporários”, disse a coordenadora Cláudia Santa Rosa.

Atraso em obras prejudica estudantes

O atraso nas obras de reforma no anexo da E. M. Emília Ramos, em Cidade Nova, que abriga uma nova escola, ainda sem nome e direção definidos, deixou sem aula 350 alunos do 4º ano, do ensino fundamental. O espaço segundo uma professora que não quis se identificar, seria desativado, mas em meio à demanda será transformada em nova instituição.

“A previsão que deram foi abril, mas não se sabe. O impasse maior é que os professores não aderiram à greve e estão trabalhando desde o início e os alunos, quando começar as aulas, terão que cumprir 200 dias letivos”, disse a professora.

Uma semana após o fim da greve, as escolas da rede municipal normalizaram o calendário. Os repasses foram regularizados e com eles, as aulas. Na E. M. Ulisses de Góis em Nova Descoberta, e no CMEI Marize Castro, em Cidade Nova, problemas como a falta de merenda, de material de apoio e limpeza foram resolvidos.

Escola Santos Reis está pronta

Uma escola novinha, com estrutura para atender 700 alunos, em 10 salas de aulas amplas e arejadas, quadra de esporte coberta e rampas de acessos e nenhum estudante. O desperdício de dinheiro e espaço público é atestado na Escola Municipal Santos Reis, no bairro homônimo, que há dois anos, quando foi concluída, aguarda que alunos da rede pública povoem seus espaços vazios.

Do outro lado, cerca de 750 estudantes aguardam em casa, o início das aulas. Isso porque, o antigo prédio onde estudavam, o Grêmio Beneficente de Pescadores de Santos Reis, não recebeu os reparos nem carteiras suficientes para funcionar este ano, sob a promessa da Prefeitura do Natal de que a transferência para o prédio ocioso, seria realizada em tempo hábil. O impasse é a ligação da energia elétrica que, segundo a diretora Linélia Maria de Albuquerque, está prevista para ocorrer até o dia 31, prazo dado pela SME para o início das aulas.

“Não há como dizer se de fato vai começar, porque falta a limpeza, a pintura da fachada que já está pichada e a colocação dos móveis. Esperamos abrir rápido, porque a impaciência é grande tanto por parte dos professores quanto dos pais e estudantes”, disse.

Desde o período previsto para o início das aulas, 18 de fevereiro, a escola já perdeu cerca de 50 alunos. “Não começa e os pais vem e pedem transferência e esse número pode aumentar, se atrasar mais”, disse a vice-diretora maria de Lourdes Oliveira Ferreira.

As gestoras aguardam o início das aulas para discutir com a SME como será cumprido o calendário. “Não começamos porque houve a ordem de não ser feito pedido de material, porque a transferência era para logo e continuamos sem funcionar aqui e lá. Mas, estamos com tudo em dia”, disse a vice-diretora. Segundo ela, o quadro de professores está fechado e os repasses financeiros para manutenção da escola foram efetuados.

Contatos

Durante todo o dia as equipes de reportagem da TRIBUNA DO NORTE tentaram ouvir as explicações de ambos os secretários de Educação. Tanto do Estado, Otávio Augusto Tavares, quanto do município, Elias Nunes.

Na parte da tarde, o contato foi tentado através dos telefones celulares, mas os auxiliares não atenderam ou retornaram às ligações. Os telefones das assessorias de imprensa também foram tentados, mas nem assim a TN recebeu resposta do governo.

*Publicado no jornal Tribuna do Norte em 24 de março de 2010

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