Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 3262/19, que
pretende alterar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB/96) para
legalizar o ensino domiciliar (o homeschooling) no Brasil. A proposta ainda não
foi votada, mas seus efeitos já se fazem sentir. Congressistas de Estados e
municípios aproveitam-se do debate para ganhar notoriedade em suas bases
ideológicas, adiantando-se ao Congresso ao tentar aprovar legislações próprias
para regulamentar a prática. Verifica-se uma onda de debates sobre o assunto
nos níveis municipal, estadual e federal acompanhada de desinformações envoltas
em discursos pautados na política do medo. Nesse cenário, avança a adesão ao
homeschooling. Segundo dados da Associação Nacional de Educação Domiciliar
(ANED), o país já soma 75 mil famílias e 150 mil estudantes nessa condição, um
número que cresce ano após ano, impulsionado pelo avanço dos discursos
conservadores nas redes sociais.
O discurso que sustenta a proposta é, à primeira vista,
sedutor. Pode ser dividido, a princípio, em dois argumentos principais: 1)
liberdade das famílias para decidir a educação de seus filhos; 2) fuga de uma
escola pública descrita como sucateada, violenta e ultrapassada. Mas sob essa
retórica da liberdade individual esconde-se algo mais profundo do que uma
simples escolha pedagógica. Há um projeto de sociedade neoliberal na economia e
conservadora nos costumes, que defende como parte do princípio social o
isolamento de grupos do contraditório. Ou seja, busca-se criar uma nova forma
de sociabilidade a partir de uma bolha onde devem circular somente os
conhecimentos éticos, estéticos e políticos alinhados aos valores defendidos
por esse grupo. A suposta defesa das crianças e adolescentes, em um mundo
descrito como perigoso, reverte-se em mera privação do único espaço onde, de
fato, pode-se aprender e conviver com quem é diferente.
O que se perde quando se sai da escola
Para entender o que está em jogo, é preciso deslocar o foco
do debate para dimensões geralmente negligenciadas. Geralmente a discussão que
costuma dominar a mídia é centrada na eficiência do ensino domiciliar a partir
de resultados de vestibulares e afins. Todavia, não se trata apenas de saber se
o ensino domiciliar produz bons resultados acadêmicos. Trata-se de perguntar o
que a escola oferece que nenhuma outra instituição consegue substituir? A
resposta é: a experiência do encontro com o outro, com o contraditório, com a
diferença. Elementos centrais para o processo de formação social e cognitiva
dos sujeitos sociais.
Como aponta o filósofo Vladimir Safatle, a formação política
de um sujeito não nasce apenas da razão ou da transmissão de conteúdo, mas de
uma economia afetiva, de modos de afetar e ser afetado que atravessam os corpos
e tornam possível — ou impossível — o reconhecimento do outro. A democracia,
nesse sentido, não é só um conjunto de regras e instituições, mas, sim, a
formação de espaços onde ocorre uma disposição afetiva para tolerar o dissenso,
o conflito, a presença de quem pensa e vive diferente de nós.
A escola, mesmo em seus problemas, é um dos poucos espaços
sociais onde essa disposição se forma na prática. É lá que a criança de uma
família encontra a de outra; que a diferença de ideias, de religião, de cor, de
jeito de viver aparece todos os dias, sem filtro e sem escolha prévia. Esse
espaço de formação é central na constituição de sujeitos que busquem uma
democracia real. Ademais, como apontou Adorno, a subjetividade autoritária não
nasce do excesso de crítica ou de convivência com o contraditório, mas
justamente da sua ausência, pois sujeitos que nunca precisaram lidar com o
incômodo de um mundo que não se organiza inteiramente segundo seus próprios
valores tendem a desenvolver menos tolerância à alteridade, não mais.
O homeschooling não apenas muda o método de ensino, ao
retirar a criança do espaço escolar. Ele elimina, por definição, esse encontro
com a diferença. A família passa a ser o único horizonte de referência afetiva,
moral, estética e política. E o que parece proteção pode se tornar, na verdade,
blindagem: uma espécie de morte simbólica da experiência do contraditório, pois
impedir o encontro e o atrito com o real é uma forma de violência. Desse modo,
o ensino escolar é uma política de formação de subjetividade estruturada no
bloqueio das possibilidades de afecção entre os sujeitos. Trata-se de uma ação
permanente contra qualquer possibilidade de emancipação.
Liberdade de quem? Para quê?
É importante não despolitizar o debate sobre o ensino,
tampouco lançar luzes somente sobre argumentos como o sucateamento escolar,
violência das escolas e liberdade de escolha, pois por trás da defesa da
“liberdade das famílias, da violência e do sucateamento” há um projeto político
concreto em curso. O pesquisador norte-americano Michael Apple, ao estudar o
avanço do homeschooling nos Estados Unidos, mostra que o movimento é sustentado
por uma coalizão que reúne neoliberais, neoconservadores religiosos e setores
autoritários, no qual todos os atores sociais apresentam o interesse comum em
retirar da escola pública o poder de formar sujeitos autônomos e críticos —
além, é claro, de criar um amplo mercado de venda de materiais, plataformas e
outros materiais para atender esse novo público. Não é por acaso que, no
Brasil, o crescimento do homeschooling acompanhe o mesmo calendário político do
avanço de bancadas conservadoras no Congresso e nas câmaras municipais.
Nessa chave, a “liberdade de escolha” anunciada pelos
defensores do PL 3262/19 é, na prática, a negação do contato com a pluralidade
— de gênero, de raça, de classe, de crença — sob a justificativa de proteger de
uma escola tida como perigosa. O problema é que esse discurso de proteção tem
um preço: sujeitos que crescem sem o atrito da alteridade tendem a se tornar,
não mais livres, mas mais frágeis diante do mundo real, que não se deixa
filtrar como um currículo doméstico. Em resumo, abre-se a portas para a
formação de subjetividades autoritárias.
A escola como espaço do comum
Paulo Freire lembrava que a educação nunca é neutra: ou ela
emancipa, ou domestica. E a emancipação, para Freire, não acontece no
isolamento, mas no encontro onde o conhecimento se produz entre sujeitos,
mediados pelo mundo e pelas experiências concretas que cada um carrega. É por
isso que a defesa da escola pública não pode ser reduzida a uma questão de
eficiência pedagógica para o bom desempenho em avaliações. Ela é, sobretudo, a
defesa de um espaço democrático onde o conhecimento esteja a serviço da emancipação,
em que a convivência com o diferente seja incentivada a fim de possibilitar o
florescimento de ideias e saberes com a diferença.
Cabe apontar que quando o Congresso discute o PL 3262/19 não
está apenas regulamentando um método de ensino alternativo. Está decidindo se o
Brasil vai continuar apostando na escola como espaço do comum e da democracia
por meio do encontro, da formação de sujeitos capazes de tolerar e reconhecer o
outro, ou se vai referendar um modelo de sociedade tradicional em que cada
família se tranca em sua própria bolha afetiva, moral, estética e política,
blindada contra tudo o que a incomoda.
A defesa da escola pública, laica e plural não é apego a uma
instituição burocrática. É a aposta de que ainda vale a pena formar sujeitos na
tensão produzida pelo encontro com a diferença, porque é na tensão, afinal, que
a democracia se aprende.
*Texto de Fernando Henrique Ferreira. Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/ensino-domiciliar-nova-ameaca-da-direita/