Por Fátima Cardoso (professora e Diretora de Comunicação do Sinte-RN)
A inclusão de professores PcD na educação também passa pelo debate, por reflexões, posições e concepções renovadas das instituições, gestores e comunidades, sobre a percepção de inclusão que preserve o respeito profissional e o desenvolvimento de suas funções. Os concursos públicos já abrigam este direito por lei. Apesar da importância que tem o concurso, por si só este não garante o direito à inclusão, e o que acontece no local de trabalho.
Existe ainda o despreparo na gestão pública quanto ao respeito ao tempo das pessoas deficientes e nas funções que exercem. O censo escolar de 2025 dá conta de que no Brasil há 10.646 profissionais PcD. Isso representa um avanço, pois reconhece o papel importante que tem o PcD na construção da sociedade e da educação, apesar de existir um lado conservador na sociedade que pretende definir o PcD.
Identificar barreiras e o diálogo com o profissional sobre medidas mais adequadas a cada situação deve ser o esforço das gestões públicas, o que nem sempre acontece. Para a comunicação, deve ser perceptível a observação externa, o esforço despendido pelo PcD para permanecer produtivo em um ambiente pouco acessível, a frequência ao ambiente das relações profissionais. O PcD muitas vezes passa pelo processo de invisibilidade e isolamento entre colegas e superiores, o que dificulta o reconhecimento das pessoas da necessidade de comunicação, inclusão e visibilidade profissional.
O Sinte-RN tem percebido este entrave nas comunidades onde o PcD atua. A dificuldade de ser respeitado como pessoa, como é, seu tempo, seu processo de compreensão, seu formato de agir, comportamentos, interesses, déficits de reciprocidade socioemocional, o que em alguns locais de trabalho pode gerar conflito e consequentemente tomadas de medidas incompatíveis para com estes profissionais.
Em 2025 chegamos a presenciar, numa escola municipal de Natal, o conflito gerado pela ausência de compreensão dos padrões restritos do TEA; como resposta, a escola procedeu com a transferência, sendo esta efetivada pela Secretaria Municipal de Educação de Natal.
O profissional com TEA tem encontrado muitas barreiras no ambiente de trabalho, pela condição de neurodesenvolvimento, cujas interações sociais e padrões comportamentais, por depender muitas vezes de suporte nas interações dos diferentes contextos; as barreiras no ambiente escolar se constituem em elementos de relevância, pois, se não quebradas e sem o preparo comunicacional entre (os sujeitos, entre si e observando o outro), as emoções externadas com estereótipos levam ao profissional com TEA ao alijamento, embora não seja doença, pois é uma condição, mas temos visto que o trato não é adequado ao direito conquistado por força de lei.
Um dos vários depoimentos, o que mais me emocionou, foi de uma professora dizer que mascara seus comportamentos e passa a imitar padrões socialmente considerados aceitos, mesmo que tenha um custo emocional muito grande. Disse outra professora: “às vezes fico isolada, para não me desregular, o que seria fatal nas minhas relações de interação com os colegas, que passaria a ser discriminada”.
Para o Sinte-RN, a luta continua, na perspectiva da construção de uma concepção social, educacional que aporte interesses coletivos, onde a diversidade não seja segregada e invisível, que o lugar de estar de cada um seja respeitado e construído um novo ideário onde as pautas específicas do movimento dos trabalhadores avancem nas conquistas sociais e humanas. As comunidades e o poder público devem avançar tanto na inclusão quanto nas condições objetivas de trabalho. Os desafios persistem, mas lutaremos para qualificar o debate público sobre PcD e reivindicar do poder público mais qualificação aos profissionais que atuarão no serviço público.